quinta-feira, 16 de abril de 2009

ROMANTISMO - CONTEXTO HISTÓRICO / GERAÇÕES POÉTICAS





Liberdade guiando o povo -
Delacroix
ROMANTISMO (SÉC XIX)

A ascensão da burguesia à classe social dominante, em conseqüência da Revolução Francesa: a evolução decorrente da Revolução Industrial; os ideais que pontificam (o liberalismo, as independências etc.) relacionam-se com o movimento romântico, assim como o surgimento de um novo público leitor. De origem burguesa este público formou o seu gosto literário através da leitura de jornais vendidos a preços acessíveis. A elevação do poder aquisitivo da classe média e um sistema de impressão de obras em escala industrial propiciaram o alargamento do mercado consumidor de livros.
SITUAÇÃO HISTÓRICA
O Romantismo como escola literária tem suas primeiras manifestações no final do século XVIII nos países europeus mais desenvolvidos, como a Alemanha e a Inglaterra. Uma obra publicada em 1774 – o romance Werther, do escritor alemão Goethe – pode ser considerada o marco inicial da escola romântica na Europa. Com esse livro lançam-se os alicerces da literatura sentimental que caracterizaria o século XIX. Na Inglaterra, os dois maiores representantes do Romantismo foram Walter Scott, autor de Ivanhoé, que instala as bases do romance histórico medievalista, e Lord Byron, o poeta ultra-romântico cuja influência sobre a juventude, o byronismo, popularizou-se como o mal-do-século.
A grande propagadora do Romantismo foi a França, devido à atmosfera legada pela Revolução Francesa(1789), que promoveu a liberdade do indivíduo, rejeitou o absolutismo e levou o poder a burguesia. A nobreza perdeu o poder político e econômico, e a burguesia passou a ditar novos valores. A euforia provocada pela Revolução, associada à possibilidade de ascensão econômica e individual, é o suporta e inspiração de uma literatura que retrata emoções individuais.

CARACTERÍSTICAS DO ROMANTISMO
- Liberdade de criação e mistura de gêneros: romperam-se os esquemas métricos e rítmicos da poesia. O escritor romântico abole todo tipo de padrão preestabelecido. Adota heróis grandiosos, geralmente personagens históricas que foram de alguma forma infelizes: vida trágica, frustração amorosa.
- Criação como impulso/ruptura de regras Valoriza-se a impulsividade, não se cerceia a iniciativa de criação: existe liberdade de exp0ressão. O poeta pode atuar como um porta-voz de um grupo, de uma geração, de sua pátria etc.
- Subjetivismo e valorização do EU: Realidade interior. A consciência individual passa a ser o princípio de qualquer conhecimento. Não há obediência _a harmonia de formas (em oposição ao Classicismo). O disforme, o feio também podem ser objetos da arte. A concepção de beleza é relativa.
- Ênfase no primeiro amor e na pureza feminina: Sobretudo a narrativa romântica terá como grande tam a história de amor, em que os que amam enfrentam sempre grandes obstáculos, mas, no fim, assistem à vitória do primeiro e único amor. A figura feminina é quase sempre vista como angelical e pura. Exemplo: Senhora, de José de Alencar.
- Primado de sentimento: A obra romântica resulta da imaginação, da fantasia. Exaltam-se os sentidos, e tudo o que é provocado pelo impulso é permitido. Contraditoriamente, supervalorizam-se o amor, a virgindade, o sentimento nostálgico, a melancolia , a solidão.
- Vitória do Bem sobre o Mal: Geralmente, no romance romântico acontece o embate entre representantes do Bem e do Mal ( a vitória da bondade sobre a maldade é inevitável. Trata-se de maniqueísmo romântico. Exemplo: Iracema, de José de Alencar.
- Historicismo e valorização da pátria: evasão no tempo, remetendo à Idade Média, berço das nações européias (Medievalismo), ou evasão no espaço, para regiões selvagens, de povos não-contaminados pela civilização. Há também extrema valorização da terra natal, vista sempre como um lugar privilegiado.
- Pessimismo e mal-do-século: A busca da solidão, a inquietação, o desespero, a frustração que pode levar ao suicídio resultam da impossibilidade de realizar o sonho absoluto do eu. Nesse sentido, notam-se grandes influências de Goethe e de Byron.
- Culto ao fantástico, ao sonho: O mundo romântico abres-e com facilidade para o mistério, para o sobrenatural. Representa com frequência o sonho, a imaginação. O que acontece na obra é impossível de ocorrer na realidade, pois é fruto da fantasia.
- Valores burgueses: A honra, o dinheiro, a moral são alguns temas caros aos românticos – valoriza-se a sociedade burguesa.
A POESIA ROMÂNTICA

DIVISÃO TRADICIONAL das GERAÇÕES ROMÂNTICAS:
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PRIMEIRA GERAÇÃO – TEMÁTICAS INDIANISTAS E AMOROSAS
GONÇALVES DE MAGALHÃES
GONÇALVES DIAS
Principal expoente: Gonçalves Dias, com sua poesia de maior elaboração artística. O nativismo indianista de seus poemas e a sua poesia lírica amorosa abriram caminhos para os poetas posteriores.
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SEGUNDA GERAÇÃO - TEMÁTICAS ULTRA-ROMÂNTICAS E BYRONIANAS
Principal expoente: Álvares de Azevedo, um poeta insatisfeito com as formas convencionais do cotidiano. Foi a geração do mal-do-século, que transformou a realidade social e histórica em fatalidade contra a qual não se poderia lutar. Casimiro de Abreu também a representou,
embora de forma mais amena.
ÁLVARES DE AZEVEDO
CASIMIRO DE ABREU
FAGUNDES VARELA
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TERCEIRA GERAÇÃO - TEMÁTICAS SOCIAIS (CONDOREIRISMO)
POESIA LÍRICA E ERÓTICA
CASTRO ALVES
Geração marcada por uma poesia participante em torno da Abolição da Escravatura e das
campanhas pela República. Temas amorosos eróticos, de um lirismo mais sensual.
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Domingos José Gonçalves de Magalhães teve como meta a implantação da nova corrente literária no país, com o apoio do imperador D. Pedro II.
Sua obra: Suspiros poéticos e saudades (publicada em 1836)
Duas características:
substituição da mitologia pagã pela cristã e a subjetividade lírica identificada com a pátria.


O Dia 7 de Setembro, em Paris

Longe do belo céu da Pátria minha,
Que a mente me acendia,
Em tempo mais feliz, em qu'eu cantava
Das palmeiras à sombra os pátrios feitos;
Sem mais ouvir o vago som dos bosques,
Nem o bramido fúnebre das ondas,
Que n'alma me excitavam
Altos, sublimes turbilhões de idéias;
Com que cântico novo
O Dia saudarei da Liberdade?
Ausente do saudoso, pátrio ninho,
Em regiões tão mortas,
Para mim sem encantos, e atrativos,
Gela-se o estro ao peregrino vate.
Tu também, que nos trópicos te ostentas
Fulgurante de luz, e rei dos astros,
Tu, oh sol, neste céu teu brilho perdes.
(...)

Antônio Gonçalves Dias
Poesia –com um tom particular: uma aliança da razão ao sentimento, uma obra equilibrada.
Casa o coração com o entendimento e a idéia com a paixão.

Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.


Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.


Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;


Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;


Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.


De Primeiros cantos (1847)

Presença do índio
Gonçalves Dias forja o seu índio nos modelos do “bom selvagem” de Rousseau. A temática indígena remete à busca de raízes nacionais< à procura do passado histórico brasileiro, assim como os europeus foram às fontes medievais de sua formação histórica. Os Timbiras
Gonçalves Dias


INTRODUÇÃO


Os ritos semibárbaros dos Piagas,
Cultores de Tupã, a terra virgem
Donde como dum trono, enfim se abriram
Da cruz de Cristo os piedosos braços;
As festas, e batalhas mal sangradas
Do povo Americano, agora extinto,
Hei de cantar na lira.
- Evoco a sombra
Do selvagem guerreiro!...
Torvo o aspecto,
Severo e quase mudo, a lentos passos,
Caminha incerto, - o bipartido arco
Nas mãos sustenta, e dos despidos ombros
Pende-lhe a rota aljava... as entornadas,
Agora inúteis setas, vão mostrando
A marcha triste e os passos mal seguros
De quem, na terra de seus pais, embalde
Procura asilo, e foge o humano trato.
Quem poderá, guerreiro, nos seus cantos
A voz dos piagas teus um só momento
Repetir; essa voz que nas montanhas
(...)

Cantos de amor
O lirismo amoroso traz a emoção sem se distanciar da razão.



Se se morre de amor


Se se morre de amor!
— Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores.
Assomos de prazer nos raiam n'alma,
De embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve, e no que vê prazer alcança!
.Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração— abertos
Ao grande, ao belo;é ser capaz d'extremos.
D'altas virtudes, até capaz de crimes!
Compr'ender o infinito, a imensidade,
E a natureza e Deus; gostar dos campos,
D'aves, flores, murmúrios solitários;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
Fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes;
Isso é amor, e desse amor se morre!

ÁLVARES DE Azevedo
Lembrança de Morrer


Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.
E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.
Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
– Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade – é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.
Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas…
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!
De meu pai… de meus únicos amigos,
Pouco - bem poucos – e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.
Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei… que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!
Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores…
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.
Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo…
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!
Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.
Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!
Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos…
Deixai a lua pratear-me a lousa!



Castro Alves (o poeta dos escravos)

Trecho do Navio Negreiro

'Stamos em pleno mar...
Doudo no espaço Brinca o luar
- dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.
'Stamos em pleno mar...
Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
- Constelações do líquido tesouro...
'Stamos em pleno mar...
Dois infinitos Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...
'Stamos em pleno mar. . .
Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...
Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?


A sensual poesia amorosa de Castro Alves

O “adeus” de Teresa
A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos... E depois na sala
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala...

E ela, corando, murmurou-me: “adeus”.

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saiu um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!
“Adeus” lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”

Passaram tempos... séc’los de delírio...
Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
... Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse – “Voltarei!... descansa!...”
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”

Quando voltei... era o palácio em festa!...
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

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