terça-feira, 22 de dezembro de 2009

FELICIDADES!

Que o Natal não seja apenas a roupa nova,
o presente recebido e esperado,
mas seja também o Natal verdadeiro
de renascimento e união entre as pessoas...

Foi muito bom conviver com todos no ano de 2009.
Um ano de desafios, aprendizagem, reflexão e algumas conquistas.
Obrigada!

Desejo um Ano de 2010 com muita saúde, esperança, realizações e ações.
beijos no coração de vocês.
Profª Maísa

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

RESUMOS: O Primo Basílio e A Cidade e as Serras - Eça de Queirós

O PRIMO BASÍLIO
Eça de Queirós
O livro é uma crítica profunda aos padrões burgueses e tenta demonstrar, a todo momento, as características maléficas dessa classe, sobretudo a lisboeta, como afirma o próprio autor em carta a Teófilo Braga: "...e você vendo-me tomar a família como assunto, pensa que eu não devia atacar essa instituição eterna, e devia voltar o meu instrumento de experimentação social contra os produtos transitórios, que se perpetuam além do momento que os justificou, e que de forças sociais passaram a ser empecilhos públicos. Perfeitamente: mas eu não ataco a família - ataco a família lisboeta - a família lisboeta produto do namoro, reunião desagradável de egoísmos que se contradizem, e mais tarde ou mais cedo centro de bambochata. Em O Primo Basílio que apresenta, sobretudo, um pequeno quadro doméstico, extremamente familiar a quem conhece bem a burguesia de Lisboa(...)"

Romance de Tese
O período naturalista foi marcado pelo desejo de redefinir as relações entre literatura e sociedade, no sentido dos leitores tomarem consciência de uma realidade que muitos não queriam ou não podiam ver (Chevrel, 1982). O escritor naturalista tem por função revelar as regras, os problemas, os comportamentos e o funcionamento inadequado da sociedade.
Um romance de tese tem sempre uma finalidade didática e normativa ao procurar demonstrar a validade de uma versão do mundo sedimentada numa doutrina política, social, filosófica, religiosa (Suleiman, 1983) - no caso, o positivismo, o socialismo utópico, o determinismo. É determinado por um fim específico, que existe antes e para além da história. O narrador é não só a fonte da história, mas também o intérprete do seu significado. O efeito persuasivo da história de aprendizagem passa por uma identificação virtual do leitor com o protagonista. A oposição aprendizagem positiva - aprendizagem negativa caracteriza a aprendizagem exemplar realizada no romance de tese. A aprendizagem positiva orienta o herói pelos valores propostos pela doutrina que fundamenta o romance. A aprendizagem negativa leva à punição do protagonista. O seu insucesso serve como lição e espera-se que o leitor perceba o percurso errado e não o deseje seguir.
J. Gaspar Simões (1980) refere que O Primo Basílio, enquanto romance de tese, estava dentro da arte revolucionária, que a Geração de 70 e Eça queriam promover, como um peixe na água. Embora Eça tenda a deixar de fora as condições econômicas da vida social, em contrapartida evidencia os fatores morais, psicológicos e educativos (Saraiva, 1982).
O "episódio doméstico" que constitui O Primo Basílio, restringe-se ao espaço social e geográfico da capital, como Eça menciona em carta a Rodrigues de Freitas, em 30 de Março de 1878, o qual se torna determinante para a própria construção das personagens:"eu procurei que os meus personagens pensassem, decidissem, falassem e atuassem como puros lisboetas, educados entre o Cais do Sodré e o Alto da Estrela; não lhes daria nem a mesma mentalidade, nem a mesma ação se eles fossem do Porto ou Viseu; as individualidades morais variam de província a província - mas no meio lisboeta que escolhi, creio que elas são lógicas, exatamente derivadas e perfeitamente correspondentes" (Queirós, Correspondência, p.141)".
O ponto de vista onisciente do narrador serve a óptica naturalista e a estratégia do romance de tese. A caracterização das personagens, sobretudo as principais, incide sobre a sua origem social, a sua educação, as características inculcadas pelo ambiente, ao serviço da tese social que o narrador pretende demonstrar. Embora neste romance o narrador, por vezes, permita a focalização interna, recorra ao monólogo interior, evidencie o universo onírico, estes aspectos não chegam a comprometer a predominância da estética naturalista.
Apesar de todas as preocupações de imparcialidade do narrador naturalista, há no romance inúmeras interferências da sua subjetividade ao nível do uso dos discursos valorativo, figurado, conotativo, abstrato, moralizante, e da ironia, que o narrador coloca ao serviço do romance de tese, visando influenciar o leitor no sentido de o levar a "ver verdadeiro", a aceitar a validade de uma certa visão do mundo.

Resumo
É domingo. Jorge e Luísa encontram-se no quarto de dormir, em um momento de intimidade. Ele fuma um cigarro e considera, contrafeito, os aborrecimentos de uma viagem à serviço que deverá fazer no dia seguinte a Alentejo. Ela, ainda de roupão, lê o Diário de Notícias..
O casamento dos dois não é resultado de nenhuma grande paixão; encontra-se, antes, fundado no desejo de organização da vida quotidiana: Jorge sente-se só após a morte da mãe; Luísa realizou o desejo de toda moça solteira, assumindo a posição de mulher casada. Não obstante, ambos vivem bem. Ele encontrou o carinho do qual necessitava e ela tem, afinal, seu homem. Ao mesmo tempo que apresenta esse mundo pacato, o narrador anuncia a chegada do personagem que o irá destruir. Luísa lê a notícia que seu primo Basílio está visitando Lisboa após longo tempo de ausência.
Mal ela comenta com o marido a novidade, entra outra personagem fundamental para a trama, Juliana, a criada de dentro. Luísa não esconde sua antipatia pela figura e já a teria despedido há muito, se Jorge não teimasse em mantê-la, em gratidão por ela ter cuidado de uma tia enferma.
À tarde, Leopoldina, amiga de infância de Luísa, vem vê-la. A visita provoca uma pequena tempestade familiar. Jorge não quer Leopoldina em sua casa, considera-a má companhia. A amiga tem de fato uma justa fama de possuir muitos amantes. Mas a rusga é breve. Luísa cede às razões do marido, este se acalma ao ver sua autoridade garantida.
Apaziguam-se os ânimos. Luísa gasta a tarde entre a leitura do final do romance A Dama das Camélias e as lembranças de seu namoro com o primo, interrompido quando ele partira para o Brasil, a fim de tentar resgatar a fortuna perdida com a falência de uma firma. Na época, ela tinha 17 anos e, sofrendo com a separação, caíra de cama com febre. Depois, conhecera Jorge e não pensara mais no assunto.
O domingo termina. Como sempre, alguns amigos visitam o casal. Julião Zuzarte, parente afastado de Jorge, é um médico mal sucedido, que destila amargura em cada comentário e olha com inveja a prata do aparador. D. Felicidade, nos seus cinqüenta anos, arde de paixão e perturba-se sensualmente ante o lustro da careca do Conselheiro Acácio, um homem sério e cheio de cerimônias, sempre pronto a fazer um discurso oficial em favor da família, da pátria e da moral. Pura hipocrisia, já que sua "moral" não o impede de viver em concubinato com sua criada.
Presente está também o primo Ernestinho Ledesma, um escritor que começa a fazer sucesso e encontra-se, nesse momento, às voltas com a criação da peça Honra e paixão, na qual, uma esposa, para salvar o marido de ser preso por uma dívida de jogo, recorre ao conde de Monte-Redondo, que intercede e entrega aos guardas a quantia devida, justamente no momento em que o homem está sendo preso. O marido, no entanto, percebendo que a mulher e o conde se amam, devolve o dinheiro e mata a mulher. O problema de Ernestinho é que o editor entende que o público deve sair do teatro alegre, exige um final menos trágico, e o autor vacila. Todos discutem que destino deve ser dado à personagem. Jorge exige que o primo siga os princípios da família e mate a adúltera sem piedade. Por essa posição intransigente, todos chamam Jorge de "Otelo".
O último a chegar à reunião é o melhor amigo de Jorge, Sebastião, o único também a se diferenciar do grupo: pessoa sensível, simples, íntegra. Goza tanta confiança de Jorge, que este lhe pede para que controle as visitas de Leopoldina a Luísa durante sua ausência.
Doze dias após partida de Jorge, Luísa recebe a visita de Basílio, que fica impressionado com a beleza da prima. O encontro é carregado de sentimentalismo, principalmente porque Basílio não deixa nunca de se referir aos velhos tempos do namoro, segundo ele, o único tempo feliz de sua vida. Cauteloso, ele entremeia as alusões amorosas com histórias de suas viagens pelo mundo e de pessoas ilustres com quem conviveu. Dessa forma, quando Luísa cora com a inconveniência das alusões ao passado, ele a distrai e seduz com o relato de suas experiências exóticas. Ao final da entrevista, valendo-se da condição de parente, ele deposita um demorado beijo na mão de Luísa.
Basílio parte. Embora Luísa passe o dia pensando nas boas qualidades de Jorge, na sua boa vida de casada, a imagem do ex-namorado persiste, sugerindo uma outra existência, mais poética, mais própria para os grandes sentimentos. Mal sabe ela que Basílio também está feliz. Ficou na dúvida em visitar a prima, mas agora que a tinha visto, compara-a com a amante que deixara em Paris, magra demais, e decide que as formas arredondadas da prima valem uma aventura. Tudo parecia pronto para o adultério.
A presença de Basílio deixa Juliana alvoroçada. Ela, na esperança de viver dias melhores, anda sempre à procura de algum segredo, de algum escândalo de suas patroas.
A história de Juliana é triste. Filha de uma engomadeira e um degredado, está acostumada a trabalhar desde cedo, sem alcançar nenhum progresso. Feia demais para atrair o desejo de um homem, acabou solteira. Assim, quando a mãe morre, fica sem ninguém no mundo.
Juliana é orgulhosa. Já serve há vinte anos e não se acostuma a servir. Juntara, penosamente, dinheiro para abrir um negocinho, o sonho de sua vida, mas uma doença levou-lhe cada uma das moedas e toda a esperança, que só voltou quando a tia de Jorge, viúva e rica, adoeceu. Mas, apesar de ter suportado o mau humor da velha durante meses, desmanchando-se em cuidados, não chegou sequer a ser citada no testamento. Foi antes promovida a criada de dentro, o que lhe deu oportunidade de ver os estofados das casa serem trocados com a parte da herança que ficou com Jorge. Como se não bastasse, Juliana sofre do coração. A revolta ruminada durante anos tornou-a má, invejosa, quase incapaz de disfarçar seu ódio pelas patroas. Por isso, passa a espreitar cada movimento de Luísa, com a intenção de descobrir algum crime do qual pudesse tirar vantagem.
O que se passa na visita do primo, por detrás das portas fechadas, fica vedado a Joana e ao leitor. Mas à noite, Luísa sai ao passeio com D. Felicidade, onde se dá um encontro "casual" entre ela e o primo . Na tarde seguinte, os dois se reencontram. Vai à casa também Julião. O resultado é catastrófico. Não bastasse sentir-se diminuído pelos trajes de Basílio, Julião percebe que Luísa está visivelmente constrangida com sua aparência. Impiedosamente, Basílio passa a pedir notícias de gente ilustre, pessoas completamente fora do círculo de Julião, que sai de cena arrasado. Aparece também o Conselheiro, para uma pequena visita. Com ele, Basílio é amável e distante, levemente superior. Dá-se entre os dois uma educada divergência de opiniões: Basílio critica Portugal, o Conselheiro defende a terra. A discussão é encerrada com Basílio cantando, acompanhado por Luísa ao piano. Enquanto canta, encara a prima de maneira tão emocionada e sedutora, que ela perde os compassos da música. O Conselheiro deixa a casa encantado. Não percebeu a comoção entre os dois, não percebeu também o desprezo de Basílio que, comparando-o a Julião, tem apenas o seguinte comentário elogioso a fazer: "este, pelo menos, é limpo".
Mal sai o Conselheiro, Basílio atira-se sobre Luísa, tentando beijá-la. Ela se assusta, resiste, fraqueja e acaba se irritando. Reconhecendo que foi muito apressado, muda de tática. Diz amá-la castamente, envolve seus sentimentos de espiritualidade e retira-se com a garantia de um novo encontro.
Naquela noite, Luísa recebe uma carta de Jorge. Tomada de culpa, decide interromper aquelas visitas familiares. Mas tão logo pensa em não ver o primo, adivinha o sofrimento do rapaz sozinho no hotel, infeliz e pálido; pondera o teor fraternal e casto do relacionamento, transforma Basílio em um personagem tão parecido com um herói romântico, tão adorável, tão infeliz, tão puro, que acaba beijando o travesseiro, pensando nos fios de cabelos brancos do primo, ganhos, segundo ele, com as saudades que sentiu dela.
Sebastião esteve na casa de Luísa por três vezes e por três vezes não conseguiu vê-la, pois Basílio estava sempre com Luísa e ele intimidou-se. Era verdade que Basílio era primo, o que garantiria certa decência nessas visitas, mas a fama de farrista, irresponsável, e conquistador de Basílio preocupa Sebastião. Além disso, já há falatórios na rua.
Sebastião angustia-se. Vai pedir conselhos a Julião, cujos comentários grosseiros só o constrangem. Decide, então, falar com Luísa. Mas quando está chegando na casa, vê Basílio entrando, ouve os comentários maliciosos dos comerciantes da rua e recua.
Lá dentro, Basílio tenta, sem sucesso, convencer Luísa a fazer um passeio ao campo. Como ela resiste, muda de estratégia. No dia seguinte, diverte-a com canções, anedotas, histórias de paixões adúlteras das parisienses. Não faz juras, não insiste e comunica que está pensando em partir. O resultado é imediato: é Luísa quem lembra o passeio e os dois fazem alguns planos.
Mas, no dia seguinte, Basílio não aparece. Exasperada, Luísa inicia um bilhete para mandar ao hotel, mas tem que enfiá-lo às pressas no bolso do vestido. Sebastião acaba de chegar para alertá-la sobre os mexericos. Encolerizada, a princípio, ela acaba por cair em si e agradecer.
Sai Sebastião, chega Leopoldina para o jantar. Elogia o amante e reclama da posição subalterna da mulher na sociedade. Os contra-argumentos morais de Luzia são frouxos. No fundo, ela também está orgulhosa de ter seu amante.
Já tarde da noite, Basílio faz uma entrada tempestuosa na sala de visitas. Exausta emocionalmente de esperá-lo durante todo o dia, temerosa de perdê-lo, Luísa deixa-se seduzir. De volta ao hotel, Basílio procura Reinaldo, colega de viagem que tem exigido mais rapidez na conquista para que possam prosseguir viagem, e informa, triunfante: finalmente, a prima está caída.
No manhã seguinte, Juliana encontra o bilhete no bolso do vestido, mas controla-se e não o tira dali. Luísa recebe uma carta de Basílio, com retumbantes declarações de amor, escritas no hotel, entre dois copos de cerveja e a leitura preguiçosa de uma revista. Emocionada, beija a carta: a primeira carta de amor que recebe, como nos romances. É preciso responder. Inicia com um "Meu adorado Basílio". Está no auge de suas confissões, quando D. Felicidade irrompe sala a dentro. Aterrorizada, Luísa amassa o papel, joga-o no lixo e leva a outra para o quarto. Quando volta, Juliana já terminara a limpeza da sala e jogara o conteúdo do lixo. Luísa fica desesperada. Percebe o perigo. Lembra do bilhete no bolso do vestido e vai verificar. Como o encontra lá, tranqüiliza-se. Crê que a carta teria sido jogada fora. Juliana é quem está esperançosa de conseguir a oportunidade por que sempre esperara: chegará a hora de exigir uma recompensa por guardar segredo do adultério da patroa.
Luísa não pensa mais no assunto, mesmo porque uma mensagem vinda do hotel avisa-a do endereço do ninho de amor que Basílio providenciou para se encontrarem e que batizou de Paraíso. Ela vai ao encontro. Está excitada com a aventura. No caminho, lembra de um romance em que o herói forra de cetim e tapeçarias o interior de um casebre miserável, para receber a amante. Mas quando chega ao local depara-se com um quarto úmido num sobrado pobre e mal cheiroso. Apesar dessa decepção, vai para lá todo dia, enquanto Juliana agüenta com boa cara o aumento vertiginoso de roupas de baixo para lavar e passar.
Mas tantas saídas só podem causar mexericos na vizinhança. Onde irá "a do engenheiro" todo santo dia? O que salva Luísa é D. Felicidade torcer o pé e ir parar na Encarnação. Sebastião encontra neste fato a explicação para as saídas constantes. Sua delicadeza o leva a um gesto protetor: como quem não quer nada, informa o Paula, comerciante de língua feroz, que D. Luísa vai todo dia visitar D. Felicidade, que se encontra doente. É o suficiente: aos olhos da vizinhança, ela passa de adúltera para exemplo de caridade.
De fato, alertada pelos elogios que Sebastião lhe dá pela assiduidade com que vê a amiga, Luísa passa mesmo a ir à Encarnação antes de dirigir-se ao Paraíso.
A casa de Jorge entra em fase de grande harmonia. Satisfeita, a patroa não implica com as empregadas. Joana, a criada de fora, recebe o amante nas horas mais calmas, enquanto Juliana sai quantas vezes precisa para ir ao médico ou a tia Vitória, uma inculcadeira que a está orientando a sobrinha em como proceder para tirar partido do segredo de Luísa.
Já no Paraíso, as coisas começam a ir mal. Basílio mostra-se cada vez menos disposto a manter as atenções da primeira fase da conquista. Tem momentos de rudeza. Há brigas, mas há reconciliações ardorosas e a relação, mesmo abalada, continua.
Um dia, Luísa encontra o Conselheiro Acácio na rua. O homem gruda-lhe nos calcanhares com tal insistência, que ela acaba por perder o encontro no Paraíso. Volta para casa furiosa e despeja sua raiva em Juliana, que reage: "a senhora saiba que nem todas as cartas foram para o lixo". A cena é violenta. Juliana passa muito mal do coração. Luísa desmaia. Quando volta a si, só vê uma saída: fugir com Basílio. Ao arrumar a mala, percebe que um baú fora arrombado e mais duas cartas roubadas. Enquanto isso, Juliana vai procurar a tia Vitória, que lhe diz como agir: mandarão um mensageiro até o hotel com cópias das cartas e exigirão um conto de réis.
Basílio só fica ao par da situação no Paraíso, mas nega-se a fugir com Luísa. Adivinha a chantagem e até se dispõe a pagar, desde que não seja ele a negociar com a mulher para evitar mais extorsão. Luísa fica fora de si. Nega-se a receber o dinheiro e vai embora.
Já no hotel, Basílio acata o conselho de Reinaldo: devem partir imediatamente para Madri. Ainda há um último encontro. Luísa entende a situação e nega-se a receber o dinheiro. Basílio parte.
Juliana, que estivera sumida, reaparece furiosa. O amante fugiu, mas ela quer seus 600 mil réis ou mostra a carta a Jorge.
Luísa vê em Sebastião sua única saída e manda chamá-lo. Ele vem feliz: Jorge escreveu para ambos. Infelizmente, ele troca as cartas e ela acaba sabendo de algumas conquistas amorosas do marido. Luísa irrita-se, constrange-se de falar de suas necessidades com o amigo do marido e o vê indo embora sem ter resolvido nada.
Sempre aconselhada pela tia Vitória, Juliana resolve ser mais política. Afinal, de nada lhe adianta delatar a outra e ficar de mãos abanando. Escreve um bilhete para a patroa desculpando-se e comprometendo-se a fazer seu serviço corretamente enquanto espera o dinheiro. Luzia escreve a Basílio, mas não tem resposta. Sebastião viajou. Jorge está para chegar e Luísa consegue um prazo maior com Juliana. Ela tenta até mesmo recuperar as cartas, abrindo o baú de Juliana num momento em que a empregada saíra. Mas é claro que Juliana teria guardado os papéis em lugar bem mais seguro.
Enquanto procura ganhar tempo e conseguir o dinheiro, Luísa vai ficando à mercê das exigências da criada. A situação piora com a chegada de Jorge, que começa a estranhar o comportamento de Juliana e a condescendência de Luísa para com a criada. Um vestido de seda usado, saídas livres, a mudança para o "quarto dos baús", local espaçoso onde Jorge guarda suas malas. Depois, é uma esteira para cobrir o chão, depois uma cômoda para a roupa, depois camisas de baixo para encher a cômoda e, afinal, roupas de sair, que Luísa tinge, para que Jorge não note. Joana, a criada de fora, sente-se preterida e Luísa, para não ter desavenças dentro de casa, vai também cobrindo de agrados a outra. Graças aos esforços de Luísa, mais uma vez, a casa está tranqüila. Agora que pode servir-se melhor da comida, Juliana supervisiona os pratos e trata de deixar as camisas de Jorge absolutamente engomadas. Mas Luísa vive desesperada. Sua esperança é que o aneurisma de que sofre Juliana estoure repentinamente. Mais do que nunca, sente-se apaixonada pelo marido e teme perdê-lo.
A fase cooperativa de Juliana dura pouco. Ela começa diminuir sua carga de trabalho. Para que Jorge não note o desleixo, Luísa passa a fazer o serviço escondido.
As provocações aumentam até que Luísa, desesperada, procura Leopoldina. A sugestão da amiga é que ela se deixe seduzir pelo Castro, um banqueiro que é louco por ela, e arranje o dinheiro necessário. Mas Luísa não concorda.
Um dia, Juliana passa mal e cai desmaiada. É a doença do coração que está agindo. Julião alerta para a possibilidade de eles ficarem com uma inválida em casa, melhor seria desfazer-se dela. Jorge decide despedir Juliana, sem saber que está encurralando a mulher. Era certo que Juliana contaria tudo se sentisse ameaçada de perder o emprego. Luísa não vê outra alternativa: teria de ceder ao Castro. Leopoldina arranja o encontro, mas na hora de entregar-se, Luísa é tomada de tal repulsa, que acaba chicoteando o banqueiro. Volta-se à estaca zero.
Uma tarde, Jorge chega do trabalho mais cedo e dá com a Juliana lendo jornal na sala, enquanto Luísa engoma nos fundos. Fica irritado com a mulher, mas dado o estado nervoso dela, cala-se. Mas dias depois, estando a criada ausente na hora de servir a refeição, Jorge explode e a despede.
Mal ele sai, estoura uma verdadeira guerra na casa. Juliana ofende Luísa e é agredida por Joana, que já há tempos está irritada com seus maus modos com a patroa. Juliana exige que a outra seja despedida, mas Joana, sentindo-se injustiçada, ameaça ir queixar-se ao patrão. Luísa chora e pede à criada que parta. Então, corre para a casa de Sebastião e conta-lhe tudo.
Entendendo perfeitamente a situação, Sebastião providencia ingressos para a ópera Fausto, de forma a deixar o campo livre. Enquanto a família está fora, vai a casa na companhia de um policial e esclarece a situação com Juliana: ou entrega a carta, ou está presa. Vendo-se obrigada a ceder, a mulher é acometida de tal crise de ódio, que o aneurisma estoura e cai morta.
Tudo parece ter entrado nos eixos. No entanto, presa de tantas comoções, Luísa começa a ter febre. Em uma das manhãs em que ela está febril, chega carta de Paris. Ocupado em ir buscar o Julião, Jorge enfia-a no bolso e esquece. O médico diagnostica uma excitação nervosa e recomenda que não se contrarie a doente. Já é tarde da noite quando Jorge lembra-se da carta. É de Basílio, explicando por que ainda não mandara o dinheiro, colocando-se à disposição e relembrando as boas manhãs passadas no Paraíso. Diante da notícia da traição da esposa, Jorge chora.
Para não piorar a doença da esposa, controla-se. Durante toda a convalescença, vela por ela atormentado pelo ciúme. Conforme melhora, Luísa cobre-o de carinho e ele deseja perdoá-la e esquecer. Mas não é capaz e mostra-lhe a carta. Luísa tem uma síncope. Inicia-se uma febre que derrota todos os esforços dos médicos. Ela falece e deixa Jorge completamente aniquilado _ .
Na noite do enterro, cada e personagem ocupa-se de uma maneira. Jorge e Sebastião choram. Julião lê uma revista estendido num sofá. Leopoldina dança numa festa do Cunha. Acácio deita-se com a amante. Dona Felicidade, informada do caso do Conselheiro, prepara-se para se recolher à Encarnação.
Pela manhã, Basílio, que chegara há pouco em Lisboa, encontra-se na frente da casa de Luísa. Tinha desejos de reativar o Paraíso. Fica realmente abatido quando sabe que ela faleceu. Até porque, confiando em reatar o caso com a prima, não trouxera com ele a amante Alphonsine.
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A cidade e as Serras
Eça de Queirós
Publicado em 1901, no ano seguinte ao da morte de Eça de Queirós, o romance A Cidade e as Serras foi desenvolvido a partir da idéia central contida no conto "Civilização", datado de 1892. Na verdade, o escritor pretendia publicar uma série de pequenos volumes em que analisaria flagrantes na vida real. Havia ainda, por parte do autor, a promessa de que o volume não passaria de quatro capítulos e cerca de 130 páginas. Ao que parece, os editores demoravam muito para editar obras muitos extensas, dificultadas pelo trabalho de composição tipográfica.
Em 1895, durante cerca de cinco meses, Eça revisou as provas deste volume e introduziu inúmeras modificações. Após a morte do escritor, em 1900, os primeiros capítulos já se encontravam compostos e os demais, ainda em manuscrito, incluindo alguns capítulos inacabados. Coube a Ramalho Ortigão, grande amigo do escritor, rever os originais, decifrá-los, revisara as provas já composta e, inclusive, emendar algumas partes que careciam de sentido.
Para situar a obra A Cidade e as Serras no contexto das obras de Eça de Queirós, é necessário revê-la como um todo. Ao publicar o conto Singularidade duma Rapariga Loura, Eça foi considerado o iniciador da narrativa realista em Portugal. Em seguida, escreveu, em conjunto com o amigo Ramalho Ortigão, a novela policial O Mistério da Estrada de Sintra. Participava do jornal mensal As Farpas que, como o próprio nome indica, tece inflamados artigos propondo reformas e satirizando os costumes, a literatura e a política de Portugal.
Após discursar sobre "O Realismo como nova expressão de Arte" nas célebres conferências do Cassino Lisboense, publicou em 1875, O Crime do Padre Amaro, romance crítico em que combate a sociedade estagnada e o clero, e coloca em prática a técnica realista de descrever aspectos psicofisiológicos com riqueza de detalhes. Em 1878, volta-se para a família pequeno-burguesa escrevendo o volume urbano O Primo Basílio, revendo a educação da mulher, a constituição moral da família e o ataque ferrenho às instituições burocráticas de Portugal. Produziu, dez anos depois, Os Maias, ambientado em Portugal e em Paris, focalizando com ironia e sarcasmo as altas esferas da sociedade, revelando-se mordaz e irreverente no tratamento da política da vida social e da literatura, com quadros repletos de vivacidade e riqueza estilística. Encerra-se aí a sua fase combativa, em que a literatura serve como escudo contra instituições, e as palavras são as lanças a serem atiradas com ironia contra Portugal, numa necessidade de denunciar o que havia de pequeno e estagnado em relação a outros países, principalmente os europeus. Nesse período, o autor exercita com perfeição suas técnicas narrativas, manuseia a linguagem com preocupações formais, analisa os caracteres de suas personagens, lapida seu estilo e vai solucionando seus problemas de índole literária, percebendo os limites da imaginação e da observação da realidade.

Depois de Os Maias, inicia uma nova fase, mais elaborada estilisticamente, e mais preocupada em dar vazão à imaginação, deixando-a correr mais solta. Assim, escreve O Mandarim, novela de caráter fantástico colocando "sobre a nudez forte da verdade - o manto diáfano da fantasia", e, pelo mesmo lema, conduz o volume A Relíquia. A partira de A Relíquia é possível perceber o início de uma nova fase, uma fase em que o escritor reconsidera sua pátria, abandonando a sátira mordaz com que vinha retratando a vida portuguesa, substituindo-a por uma ternura quase calma, mais sincera, quase uma redenção, um pedido de desculpas por ter escrito romances em que denunciava o atraso e o provincianismo da terra. A Ilustre Casa de Ramires traz Eça de Queirós referindo-se liricamente aos grandes valores portugueses: o homem, a paisagem e as origens históricas; em A Cidade e as Serras acredita na vida simples e rústica, libertando o bucolismo, valorizando os seres simples, a distância da civilização, a pureza da vida campestre na mais sincera contaminação romântica. Volta-se para a descrição das paisagens mais familiares que costumava ver na infância, O primitivo de A Cidade e as Serras e o apego histórico de A Ilustre Casa de Ramires compõem os romances da última fase do escritor, que, juntamente com A Correspondência de Fradique Mendes, colocam fecho de ouro aos escritos de Eça de Queirós. Ajuste da civilização

O romance é escrito em primeira pessoa por José Fernandes, um personagem secundário. O narrador centraliza seu interesse na figura de um certo Jacinto, descrevendo-o como um homem extremamente forte e rico, que, embora tenha nascido em Paris, no 202 dos Campos Elíseos, tem seus proventos recolhidos de Portugal, onde a família possui extensas terras, desde os tempos de D. Dinis, com plantações e produção de vinho, cortiça e oliveira, que lhe rendem bem. O avô de Jacinto, também Jacinto, gordo e rico, a quem chamavam D. Galeão, era um fanático miguelista. Quando D. Miguel deixou o poder, Jacinto Galeão exilou-se voluntariamente em Paris, lá morrendo de indigestão. D. Angelina Fafes, após a morte do marido, não regressou a Portugal, e, em Paris, criou seu filho, o franzino e adoentado Cintinho que se casou com a filha de um desembargador, nascendo desta união nosso protagonista.Desde pequeno Jacinto brilhara, quer por sua inteligência, quer por sua capacidade. Aos 23 anos tornou-se um soberbo rapaz, vestido impecavelmente, cabelos e bigodes bem tratados, e feliz da vida. Tudo de melhor acontecia com ele, sendo chamado pelos companheiros de "Príncipe da Grã-Ventura". Positivista animado, Jacinto defendia a idéia de que "o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado". A maior preocupação de Jacinto era defender a tese de que a civilização é cidade grande, é máquina e progresso que chegavam através do fonógrafo, do telefone cujos fios cortam milhares de ruas, barulhos de veículos, multidões... Civilização é enxergar à frente. Com estes olhos que recebemos da Madre Natureza, lestos e sãos, nós podemos apenas distinguir além, através da Avenida, naquela loja, uma vidraça alumiada. Nada mais! Se eu porém aos meus olhos juntar os dois vidros simples de um binóculo de corridas, percebo, por trás da vidraça, presuntos, queijos, boiões de geléia e caixas de ameixa seca. Concluo, portanto, que é uma mercearia. Obtive uma noção: tenho sobre ti, que com os olhos desarmados vês só o luzir da vidraça, uma vantagem positiva. Se agora, em vez destes vidros simples, eu usasse os de meu telescópio, de composição mais científica, poderia avistar além, no planeta Marte, os mares, as neves, os canais, o recorte dos golfos, toda a geografia de um astro que circula a milhares de léguas dos Campos Elísios. É outra noção, e tremenda! Tens aqui, pois, o olho primitivo, o da natureza, elevado pela Civilização à sua máxima potência da visão. E desde já, pelo lado do olho, portanto, eu, civilizado, sou mais feliz que o incivilizado, porque descubro realidades do universo que ele não suspeita e de que está privado. Aplica esta prova a todos os órgãos e compreende o meu princípio. Enquanto à inteligência, e à felicidade que dela se tira pela incansável acumulação das noções, só te peço que compares Renan e o Grilo... Claro é, portanto, que nos devemos cercar de Civilização nas máximas proporções para gozar nas máximas proporções a vantagem de viver. Em fevereiro de 1880,

Zé Fernandes foi chamado pelo tio e parte para Guiães e, somente após sete anos de vida na província, retorna e reencontra Jacinto no 202 dos Campos Elíseos. O narrador presenciou coisas espantosas: um elevador para ligar dois andares do palacete; no gabinete de trabalho havia aparelhos mecânicos cheios de artifício; e, enquanto Jacinto escreve para Madame d'Oriol, José Fernandes visita uma enorme biblioteca de trinta mil títulos, os mais diversos possíveis, dos mais renomados autores às mais diferentes ciências. A visita termina com uma refeição em que foram servidas as mais sofisticadas iguarias e um convite de Jacinto ao narrador que ele se hospede no 202.

Primeiros desencantos

Zé Fernandes, a partir daí, pôde observar com maior atenção o amigo; suas intensas atividades o desgastavam e, com o passar do tempo, constatou que Jacinto foi perdendo a credulidade, percebendo a futilidade das pessoas com quem convivia, a inutilidade de muitas coisas da sua tão decantada civilização. Nos raros momentos em que conseguiam passear, confessava ao amigo que o barulho das ruas o incomodava, a multidão o molestava: ele atravessava um período de nítido desencanto. Alguns incidentes contribuíram sobremaneira para afetar o estado de ânimo de Jacinto: o rompimento de um dos tubos da sala de banho, fazendo jorrar água quente por todo o quarto, inundando os tapetes, foi o bastante para aparecer uma pilha de telegramas, alguns inclusive com um riso sarcástico, com o do Grao-Duque Casimiro, dizendo que não mais apareceria pelo 202 sem que tivesse uma bóia de salvação.
As reuniões sociais estavam ficando maçantes. Em uma recepção ao Grão-Duque, jacinto já não agüentava o farfalhar das sedas das mulheres quando lhes explicava o uso dos diferentes aparelhos, o tetrafone, o numerador de páginas, o microfone... O criado veio lhe informar que o peixe a ser servido ficara preso no elevador e os convidados puseram-se a pescá-lo, inutilmente, porque o peixe acabou não indo para a mesa, fato que deixou ainda mais aborrecido o anfitrião.
Claramente percebia eu que o meu Jacinto atravessava uma densa névoa de tédio, tão densa, e ele tão afundado na sua mole densidade, que as glórias ou os tormentos de um camarada não o comoviam, como muito remotas, inatingíveis, separadas da sua sensibilidade por imensas camadas de algodão. Pobre Príncipe Grã-Ventura, tombado para o sofá de inércia, com os pés no regaço do pedicuro! Em que lodoso fastio caíra, depois de renovar tão brava mente todo o recheio mecânico e erudito do 202, na sua luta contra a força e a matéria!
Preocupado, Zé Fernandes consulta o fiel criado Grilo sobre o que está ocorrendo com Jacinto. O homem respondeu com tamanho conhecimento de causa que espantou o narrador. Uma simples palavra poderia definir todo o tédio de que era acometido: o patrão sofria de "fartura".
Era fartura! O meu Príncipe sentia abafadamente a fartura de Paris; e na Cidade, na simbólica Cidade, fora de cuja vida culta e forte (como ele outrora gritava, iluminado) o homem do século XIX nunca poderia saborear plenamente a "delícia de viver", ele não encontrava agora forma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o esforço de uma corrida curta numa tipóia fácil. Pobre Jacinto! Um jornal velho, setenta vezes relido desde a crônica até aos anúncios, com a tinta delida, as dobras roídas, não enfastiaria mais o solitário, que só possuísse na sua solidão esse alimento intelectual, do que o parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se eu nesse verão capciosamente o arrastava a um café-concerto, ou ao festivo Pavilhão d'Armenonville, o meu bom Jacinto, colado pesadamente à cadeira, com um maravilhoso ramos de orquídeas na casaca, as finas mãos abatidas sobre o castão da bengala, conservava toda a noite uma gravidade tão estafada, que eu, compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em abalar, a sua fuga de ave solta... Raramente (e então com veemente arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus clubes, ao fundo dos Campos Elíseos. Não se ocupara mais das suas sociedades e companhias, nem dos telefones de Constantinopla, nem das religiões esotéricas, nem do bazar espiritualista, cujas cartas fechadas se amontoavam sobre a mesa de ébano, de onde o Grilo as varria tristemente como o lixo de uma vida finda. Também lentamente se despegava de todas as sua convivências. As páginas da agenda cor-de-rosa murcha andavam desafogadas e brancas. E se ainda cediam a um passeio de mail-coach, ou a um convite para algum castelo amigos dos arredores de Paris, era tão arrastadamente, com um esforço saturado ao enfiar o paletó leve, que me lembrava sempre um homem, depois de um gordo jantar de província, a estalar, que, por polidez ou em obediência a um dogma, devesse ainda comer uma lampreia de ovos! Jazer, jazer em casa, na segurança das portas bem cerradas e bem fendidas contra toda a intrusão do mundo, seria uma doçura para o meu Príncipe se o seu próprio 202, com todo aquele tremendo recheio de Civilização, não lhe desse uma sensação dolorosa de abafamento, de atulhamento!
Certo dia, enquanto esperavam ser recebidos por Madame d'Oriol, José Fernandes e Jacinto subiram à Basílica do Sacré-Coeur, em construção no alto de Montmartre. Ao se recostarem na borda do terraço, puderam contemplar Paris envolta em uma nuvem cinzenta e fria, motivando profunda reflexões, pois a cidade - tão cheia de vida, de ouro, de riquezas, de cultura e resplandecência, incluindo o soberbo 202, com todas as suas sofisticações - estava agora sucumbida sob as nuvens cinzentas, a cidade não passava de uma ilusão.
(...) uma ilusão! E a mais marga, porque o homem pensa ter na cidade a base de toda a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua miséria. Vê, Jacinto! Na Cidade perdeu ele a força e beleza harmoniosa do corpo e se tornou esse ser ressequido e escanifrado ou obeso e afogado em unto de ossos moles como trapos, de nervos trêmulos como arames, com cangalhas, com chinós, com dentauros de chumbo sem sangue, sem febre, sem viço, torto, corcunda - esse ser em que Deus, espantado , mal pôde reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Adão! Na Cidade findou a sua liberdade moral; cada manhã ela lhe impõe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependência; pobre e subalterno, a sua vida é um constante solicitar, adular, vergar, rastejar, aturar: rico e superior como um Jacinto, a sociedade logo o enreda em tradições, preceitos, etiquetas, cerimônias, prazer, ritos, serviços mais disciplinares que os de um cárcere ou de um quartel... A sua tranqüilidade (bem tão alto que Deus com ele recompensa os santos) onde está, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha desesperada pelo pão ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gozo, ou pela fugidia rodela de ouro! Alegria como a haverá na Cidade para esses milhões de seres que tumultuam na arquejante ocupação de desejar - e que, nunca fartando o desejo, incessantemente padecem de desilusão, desesperança ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na cidade se desumanizam! Vê, meu Jacinto! São como luzes que o áspero vento do viver social não deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e faz tremer; e além brutamente apaga; e adiante obriga a flamejar com desnaturada violência. As amizades nunca passam de alianças que o interesse, na hora inquietada da defesa ou na hora sôfrega do assalto, ata apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da rivalidade ou do orgulho. E o amor, na Cidade, meu gentil Jacinto? Considera esses vastos armazéns com espelhos; onde a nobre carne de Eva se vende, tarifada ao arrátel, como a de vaca! Contempla esse velho deus do himeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da paixão a apertada carteira dodote! (...) Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Inteligência, porque ou lha arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a extravagância. Nesta densa e pairante camada de idéias e fórmulas que constitui a atmosfera mental das cidades, o homem que a respira, nela envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados só exprime todas as expressões já exprimidas; ou então, para se destacar na pardacenta e chata rotina e trepar ao frágil andaime da gloríola, inventa num gemente esforço, inchando o crânio, uma novidade disforme que espante e que detenha a multidão. (...) Assim, meu Jacinto, na Cidade, nesta criação tão antinatural onde o solo é de pau e feltro e alcatrão, e o carvão tapa o céu, e agente vive acamada nos prédios com o paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se murmuram através de arames - o homem aparece como uma criatura anti-humana, sem beleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem sentimento, e trazendo em si uma espírito que é passivo como um escravo ou impudente como um histrião... E aqui tem o belo Jacinto o que é a bela Cidade! Zé Fernandes continuou a filosofar, acrescentando preocupações de caráter pessoal, indagando a posição dos pequenos que, como vermes, se arrastavam pelo chão, enquanto os poderosos os massacravam; eles iam às óperas aquecidos, lançando aos pobres não mais que algumas migalhas. Religiosamente, acreditava ser necessário um novo Messias que ensinasse às multidões a humildade e a mansidão. Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade e os gozos especiais que ele a cria. O resto, a escura, imensa plebe, só nela sofre, e com sofrimento especiais, que só nela existem! (...) A tua Civilização reclama incansavelmente regalos e pompas, que só obterá, nesta marga desarmonia social, se o capital der ao trabalho, por cada arquejante esforço, uma migalha ratinhada. Irremediável é, pois, que incessantemente a plebe sirva, a plebe pene! A sua esfalfada miséria é a condição do esplendor sereno da Cidade. (...)
Pensativamente deixou a borda do terraço, como se a presença da Cidade, estendida na planície, fosse escandalosa. E caminhamos devagar, sob a moleza cinzenta da tarde, filosofando - considerando que para esta iniqüidade não havia cura humana, trazida pelo esforço humano. Ah, os Efrains, os Trèves, os vorazes e sombrios tubarões do mar humano, só abandonarão ou afrouxarão a exploração das plebes, se uma influência celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes converter as almas! O burguês triunfa, muito forte, todo endurecido no pecado - e contra ele são impotentes os prantos dos humanitários, os raciocínios dos lógicos, as bombas dos anarquistas. Para amolecer tão duro granito só uma doçura divina. Eis pois a esperança da Terra novamente posta num Messias!...

De Schopenhauer ao Eclesiastes: pessimismo

Como já havia planejado, o narrador partiu para uma viagem pela Europa e, ao retornar, procurou o amigo e tentou descobrir o que lhe passava na lama, pois encontrou-o mais pessimista que nunca, depressão revelada pelas leituras do Eclesiastes e do filósofo pessimista Schopenhauer. Nestas leituras, encontrava um certo amparo aos comprovar que todo mal era resultante de uma lei universal e, a partir daí, encontrou uma grata ocupação - maldizer a vida. Ao mesmo tempo, sobrecarregou sua existência com fervores humanísticos. Mas de nada adiantava, pois Jacinto estava desolado. No inverno escuro e pessimista, Jacinto acordou certa manhã e comunicou a José Fernandes que esta de partida para Tormes. Decidiu viajar ao receber uma carta de Silvério, seu procurador, que dizia estarem concluídos os trabalhos de reerguimento da capela para onde seriam translados os restos mortais de sues avós que ele não conhecera, mas que o 202 estava cheio de recordações. Os preparativos para a viagem envolveram uma mudança da civilização para as serras. Jacinto encaixotou camas de penas, banheiras, cortinas, divãs, tapetes, livros, despachou tudo para poder enfrentar com conforto um mês nas serras. Enquanto isso; renascia nele o amor pela cidade.
Partiram os dois amigos de volta a Portugal. As cidades passavam pelas janelas do trem: da França para a Espanha, da Espanha para Portugal... Tomado por uma suave emoção, José Fernandes estava feliz em rever a pátria; Jacinto, aborrecido e enfadado principalmente porque, em Medina (Espanha), as malas ficaram em compartimentos errados quando foi feita a baldeação. O narrador, com o intuito de aclamar o amigo, diz-lhe que a Companhia cuidaria de tudo. E ficaram os dois só com a roupa do corpo. Enfim, chegaram a Tormes.
...e ambos em pé, às janelas, esperamos com alvoroço a pequenina estação de Tormes, termo ditodoso das nossas provaçõe4s. Ela apareceu enfim, clara e simples, à beira do rio, entre rochas, com sues vistoso girassóis enchendo um jardinzinho breve, as duas altas figueiras assombreando o pátio, e por trás, a serra coberta de velho e denso arvoredo.
Desembarcaram em Tormes, onde o narrador encontrou o velho amigo Pimenta, chefe da estação. Após apresentar-lhe o senhor de Tormes, indagou por Silvério, o procurador de Jacinto em terras portuguesas. Começaram então outros desastres da viagem. Silvério não os aguardava: havia partido há dois meses para o Castelo de Vide. Os criados Grilo e Anatole, aparentemente estavam com as 23 malas em outro compartimento, não foram encontrados, o trem apitou e partiu, deixando os dois sem nada. Não havia cavalos para atravessarem a serra, pois Melchior, o caseiro, não os esperava senão para o mês seguinte. Pimenta arranjou-lhes uma égua e um burro e ambos seguiram serra cima, esquecendo, por alguns instante, os infortúnios passados enquanto contemplavam a beleza da paisagem. O pior ainda estava por acontecer: os caixotes despachados de Paris há quatro meses não haviam chegado, e o mais civilizado dos homens estava totalmente à mercê das serras. Como ninguém os esperava, a casa não estava pronta para recebê-los, a reforma acontecia devagar, os telhados ainda continuavam sem telhas, a vidraças sem vidros. Zé Fernandes sugeriu que rumassem para a casa de sua tia Vicência em Guiães e Jacinto retrucou que ia mesmo para Lisboa. Melchior arranjou como pôde um jantarzinho, caseiro e simples, longe das comidas sofisticadas, das taças de cristal, dos metais e porcelanas. Uma comida que serviu para matar gostosamente a fome dos viajantes. O senhor de Tormes regalou-se com o jantar que lhe parecera, à primeira vista, insuportável; e o caseiro, diante das manifestações de regozijo perante a comida, pensou que seu senhor passava fome em Paris.
O bom caseiro sinceramente cria que, perdido nesses remotos Parises, o senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e minguava... E o meu Príncipe, na verdade, parecia saciar uma velhíssima fome e uma longa saudade da abundância, rompendo assim, a cada travessa, em louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da salada aquele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra digno dos lábios de Platão, terminou por bradar: - "É divino!" Mas nada o entusiasmava como um vinho de Tormes, caindo do alto, da bojuda infusa verde - um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, à vela de sebo, o copo grosso que ele orlava de leve espuma rósea, o meu Príncipe, com um resplendor de otimismo na face, citou Virgílio:- Quo te carmina dicam, Rethica? Quem dignamente te cantará, vinho amável desta serras? Após o jantar, ambos ficaram contemplando o céu cheio de estrelas, passaram a ver os astros que na cidade não se dignavam ou não conseguiam observar. O narrador ia-se deixando levar por um contato tão estreito com a paisagem, que em breve surgia uma identificação total do homem com a natureza e em tudo percebia-se Deus, num claro processo panteísta muito comum entre os romântico e que Eça passou a assumir.
- Oh Jacinto, que estrela é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do telhado?
- Não sei... E aquela, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral?
- Não sei.
- Não sabíamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorância com que saí do ventre de Coimbra, minha mãe espiritual. Ele, porque na sua biblioteca o possuía trezentos e oito tratados sobre astronomia, e o saber assim acumulado, forma um monte que nunca se transpõe nem se desbasta. Mas que nos importava que aquele astro além se chamasse Sírio e aquele outro Aldebarã? Que lhes importava a eles que um de nós fosse Jacinto, outro Zé? Eles tão imensos, nós tão pequeninos, somos a obra da mesma vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e Sande, constituímos modos diversos de um ser único, e as nossas diversidades esparsas somam na mesma compacta unidade. Moléculas do mesmo todo, governadas pela mesma lei, rolando para o mesmo fim... Do astro ao homem, do homem à flor do trevo, da flor do trevo ao mar sonoro - tudo é o mesmo corpo, onde circula como um sangue, o mesmo deus. E nenhum frêmito de vida, pormenor, passa numa fibra desse sublime corpo, que se não repercuta em todas, até às mais humildes, até às que parecem inertes e invitais. Quando um sol que não avisto, nunca avistarei, morre de inanição nas profundidades, esse esguio galho de limoeiro, embaixo na horta, sente um secreto arrepio de morte; e, quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, além o monstruoso Saturno estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacinto abateu rijamente a mão no rebordo da janela. Eu gritei:
- Acredita! ...O sol tremeu.
- E depois ( como eu notei) devíamos considerar que, sobre cada um desses grãos de pó luminoso, existia uma criação, que incessantemente nasce, perece, renasce. O cansaço vence os dois viajantes. José Fernandes adormece sob os apelos de Jacinto para que lhe enviasse algumas peças brancas e lhe reservasse alojamento em um bom hotel de Lisboa. Uma semana depois que José Fernandes havia partido para Guiães, recebeu suas malas e imediatamente enviou um telegrama para Lisboa, endereçado ao hotel Bragança, agradecendo pela bagagem que foi encontrada e alegrando-se pelo amigo estar novamente gozando os privilégios de seres civilizados. No entanto, não obteve resposta. Certo dia, o narrador voltando de Flor da Malva, da casa de sua prima Joaninha, parou na venda de Manuel Rico, e ficou sabendo algo surpreendente através do sobrinho de Melchior: Jacinto permanecia em Tormes já há cinco semanas. Ao visitar Jacinto, José Fernandes o encontrou totalmente mudado, física e mentalmente. Nada nele denunciava um homem franzino; estava encorpado, corado, como um verdadeiro montês.
Mas o meu novíssimo amigo, debruçado da janela, batia as palmas - como Catão para chamar os servos, na Roma simples. E gritava:
- Ana Vaqueira! Um copo de água, bem lavado, da fonte velha!
Pulei, imensamente divertido:
- Oh Jacinto! E as águas carbonatadas? E as fosfatadas? E as esterilizadas? E as sódicas?...
- O meu Príncipe atirou os ombros com um desdém soberbo. E aclamou a aparição de um grande copo, todo embaciado pela frescura nevada da água refulgente, que uma bela moça trazia num prato.

Um homem de bem com a vida

Era um outro Jacinto a quem o campo já não mais era insignificante. Cada momento novo era uma nova e alegre descoberta. Enfim, era um homem de bem com a sua vida. Aproveitando a presença do amigo, Jacinto providenciou a transladação dos corpos de seus antepassados para a Capelinha da Carriça, agora reconstruída. Zé Fernandes, hábil observador do amigo, percebeu que Jacinto não se contentava em ser o apreciador passivo dos encantos da natureza. Ele queria participar de tudo, e lhe surgiam grandes idéias como encher pastos, construir currais perfeitos, máquinas para produzir queijos...
Certo dia, ao percorrer seus domínios, Jacinto conheceu o outro lado da serra: uma criança muito franzina viera pedir socorro para a mãe agonizante. A partir desse momento, as decisões de Jacinto tomaram novo rumo, pois ele começou a se preocupar com o lado triste da serra, e passou a fazer caridade, reconstruir casa, dar novo alento à vida dos humildes. Em uma das inúmeras visitas que lhe fez o narrador, Jacinto confessou que pretendia introduzir um pouco de civilização naqueles cantos tão rústicos. O povo da região começou a agradecer as benfeitorias e logo passou a circular a lenda que o senhor de Tormes era D. Sebastião que havia voltado para ressuscitar Portugal.
Convidado por Zé Fernandes para o aniversário de tia Vicência, Jacinto encontraria aí a oportunidade de conhecer seus vizinhos, outros proprietários. No entanto, a recepção não foi aquilo que o narrador esperava. Havia uma frieza por parte dos habitantes da região, exceto tia Vicência que o recebeu como verdadeiro sobrinho. Ao terminarem a ceia, vieram a saber porquê daquela frieza: eles pensavam que o senhor de Tormes fosse miguelista como o avô e que pretendia restituir D. Miguel ao poder. E só compreendi, na sala, quando o Dr. Alípio, com sua chávena de café e o charuto fumegante, me disse, num daqueles seus olhares finos, que lhe valiam a alcunha de "Dr. Agudos:" - 'Espero que ao menos, cá por Guiães, não se erga de novo a forca!...' E o mesmo fino olhar me indicava a D. Teotônio, que arrastara Jacinto para entre as cortinas de uma janela, e discorria, com um ar de fé e de mistério. Era o miguelismo, por Deus! O bom D. Teotônio considerava Jacinto como um hereditário, ferrenho miguelista, - e na sua inesperada vinda ao solar de Tormes, entrevia uma missão política, o começo de um a propaganda enérgica, e o primeiro passo para uma tentativa de restauração. E na reserva daqueles cavalheiros, ante o meu Príncipe, eu senti então a suspeita liberal, o receio de uma influência rica, novas, nas eleições próximas, e a nascente irritação contra as velhas idéias, representadas naquele moço, tão rico, de civilização tão superior. Quase entornei o café, na alegre surpresa daquela sandice. E retive o Melo Rebelo, que repunha a chávena vazia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o "Dr. Agudo".
Este jantar serviu de pretexto para o narrador mostrar a mentalidade atrasada da sociedade serrana e aquilo que a fazia sorrir Jacinto era, na verdade, um abismo entre a ignorância e o progresso. A serra estava impregnada de uma mentalidade retrógada, ainda absolutista, enquanto no final do século polvilhavam novas teorias e doutrinas filosóficas e políticas. Tentou-se ainda um jogo de voltarete para animar a noite, mas a ameaça de uma a tempestade levou os convidados a baterem em retirada. A manhã seguinte estava fresca e clara,. José Fernandes levou o amigo até Flor da Malva, para visitar sua prima Joaninha que não pudera comparecer à reunião, pois o pai, Adrião, estava acamado. No caminho, encontraram João Torrado, um velho eremita que supôs estar diante de D. Sebastião. Esta figura ilustrava o lado da profundidade do mito na mentalidade simples, saudando Jacinto como um profeta, e tratando-o como "pai dos pobres". Nele estão representadas a sabedoria e a simplicidade do povo. E um estranho velho, de longos cabelos brancos, barbas brancas, que lhe comiam a face cor de tijolo, assomou no vão da porta, apoiado a um bordão, com uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacinto dois olhinhos de um brilho negro, que faiscavam. Era o tio João Torrado, o profeta da serra... Logo lhe estendi a mão, que ele apertou, sem despregar de Jacinto os olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir outro copo, apresentei Jacinto, que corara, embaraçado.
- Pois aqui tem, o senhor de Tormes, que fez por aí todo esse bem à pobreza.
- O velho atirou para ele bruscamente o braço, que saía cabeludo e quase negro, de uma manga muito curta.
- A mão!
- E quando Jacinto lha deu, depois de arrancar vivamente a luva, João Torrado longamente lha reteve com um sacudir lento e pensativo murmurando:
- Mão real, mão de dar, mão que vem de cima, mão já rara!
- Depois tomou o copo, que lhe oferecia o Torto, bebeu com imensa lentidão, limpou as barbas, deu um jeito à correia que lhe prendia a caixa de lata, e batendo com aponta do cajado no chão:
- Pois louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, que por aqui me trouxe, que não perdi o meu dia, e vi um homem!
- Eu então debrucei-me para ele, mais em confidência:
- Mas, ó tio João, ouça cá! Sempre é certo você dizer por aí, pelos sítios, que el-rei?D. Sebastião voltará?
- O pitoresco velho apoiou as duas mãos sobre o cajado, o queixo da espalhada barba sobre as mãos, e murmurava, sem nos olhar, como seguindo a procissão dos seus pensamentos:
- Talvez voltasse, talvez não voltasse... Não se sabe quem vai, nem quem vem. A chegada a Flor de Malva prepara o desfecho do romance. Joaninha, que não se apresenta sequer ruma fala na narrativa, jovem de uma formosura ímpar estaria destinada a ser a senhora de Tormes.
Mas, à porta, que de repente se abriu, apareceu minha prima Joaninha, corada do passo e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no pescoço, que fundia mais docemente, numa larga claridade, o esplendor branco da sua pele, e o louro ondeado dos eus belos cabelos, - lindamente risonha, na surpresa que alargava os seus largos, luminoso olhos negros, e trazendo ao colo uma criancinha, gorda e cor-de-rosa, apenas coberta cima uma camisinha, de grandes laços azuis.
E foi assim que Jacinto, nessa tarde de setembro, na Flor da Malva, viu aquela com quem casou, em maio, na capelinha de azulejos, quando o grande pé de roseira se cobrira já de rosas.
Cinco anos se passaram em plena felicidade por ver correrem por aquelas terras duas fidalgas crianças, Teresinha e Jacinto. Os caixotes embarcados de Paris enfim chegaram a Tormes e serviam para demonstrar o total equilíbrio do protagonista, aproveitando o que poderia ser aproveitado e desprezando as inutilidades da civilização, justificando deste modo a observação feita por Grilo: Sua Excelência brotara". Certamente Jacinto descobrira seus melhores valores: era feliz e fazia os outros felizes. Algumas vezes Jacinto falou em levar a esposa para conhecer o 202 e a civilização, mas o projeto, por um motivo ou por outro, era sempre adiado. Quem voltou a Paris foi Zé Fernandes e lá, sentindo-se abandonado e entendiado, descobriu uma porção de fantoches a viverem uma vida falsa e mesquinha. Percebeu que os antigos conhecidos eram seres frágeis e vazios, idênticos entre si e massas impessoais, amorfas, feitas para gradar ou desagradar os outros conforme seus interesses. Não suportando a cidade, retornou a Portugal. Este serrano que anteriormente valorizava os encantos da civilização foi tomado pelos mesmos sentimentos de Jacinto e confirmou uma simples verdade: no fundo, reabilitou Eça de Queirós com o seu Portugal.
Arrastei então por Paris dias de imenso tédio. Ao longo do Boulevard revi nas vitrinas todo o luxo, que já me enfartava havia cinco anos, sem uma graça nova, uma curta frescura de invenção. Nas livrarias, sem descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarelos, onde, de cada página que ao acaso abria, se exalava um cheiro de morno de alcova, e de pó-de-arroz, de entre linhas trabalhadas com efeminado arrebique, como rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava, ornando e disfarçando as carnes ou as aves, o mesmo molho, de cores e sabores de pomada, que já de manhã, noutro restaurante, espelhado e dourejado, me enjoara no peixe e nos legumes. Paguei por grosso preços garrafas do nosso rascante e rústico vinho de Torres, enobrecido com o título de Chatêaou-isto, Château-aquilo, e pó postiço no gargalo. À noite, nos teatros, encontrava a cama, a costumada cama, como centro e único fim da vida, atraindo, mais fortemente que o monturo atrai as moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes de erotismo, zumbindo pilhérias senis. Esta sordidez da planície me levou a procurar melhor aragem de espírito nas alturas da Colina, em Montmartre; - e aí, no meio de uma multidão elegante de senhoras, de duquesas, de generais , de todo o lato pessoal da cidade, eu recebia, do alto do placo, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de gozo as orelhas cabeludas de gordos banqueiros, e arfar com delícia os corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postiços das nobres damas. E recolhia enjoado com, tanto relento de alcova, vagamente dispéptico com os molhos de pomada do jantar, e sobretudo descontente comigo, por me não divertir, não compreender a cidade, e errar através dela e da sua civilização superior, com reserva ridícula de um censor, de um Catão austero. "Oh senhores!", pensava eu "pois não me divertirei nesta deliciosa cidade?" Entrara comigo no bolor da velhice.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

ROTEIRO DE ESTUDO 1ºBIMESTRE

ROTEIRO DE ESTUDO 1ºBIMESTRE

APOSTILA
Comédia de costumes;
Frase, Oração e Período.
Período simples e Período composto(relação de explicação, adversidade, condição, tempo e lugar)
Notícia ou opinião?

LIVRO e blog de apoio.
ROMANTISMO - BRASIL (pág 460 até pág. 468) / contexto histórico/características/ Gerações poéticas e seus autores
ROMANTISMO - PORTUGAL (pág. 536 até pág. 538)/ contexto histórico /características

Cartas do Jovem Werther ( estão no caderno e no blog de apoio)

ARTIGO DE OPINIÃO -Um tema - muitas opiniões -
CAPÍTULO 26 (INÍCIO NA PÁGINA 368)
ANÁLISE TEXTUAL.

Os sofrimentos do Jovem Werther ( de Goethe)



Os sofrimentos do jovem Werther

Autor: Jonhann Wolfang Goethe

Obra essencialmente psicológica publicada em 1774, na Alemanha do século XVIII, assinala o início da estética literária denominada Romantismo. Baseada em um fato real da vida do autor Jonhann Wolfang Goethe, o livro narra o amor não-correspondido do jovem Werther pela bela Charlotte S. A história se desenrola quando Werther a fim de tomar posse de uma herança instala-se numa pequena cidade, onde conhece e enamora-se de Charlotte durante uma festa campestre. Esta, porém, é noiva e está prometida a Albert, tornando-se mais tarde sua esposa.

Perdidamente apaixonado por Charlotte, Werther utiliza-se de cartas enviadas ao amigo Wilhelm que deixara em sua cidade natal para contar seu idílio amoroso:

16 de junho

Por que não lhe tenho escrito? Justamente você, que é um sábio, me pergunta isso? Devia ter adivinhado que estou muito bem e que... resumindo, conheci alguém que tocou o meu coração. Eu... eu não sei mais o que dizer. Não é fácil contar-lhe na ordem como as coisas aconteceram, que me fizeram conhecer a mais adorável das criaturas. Sinto-me contente, feliz; serei, por conseguinte, um mau cronista. É um anjo!... Ora, já sei que todos dizem isso de sua amada, não é verdade? Todavia, é-me impossível dizer a você o quanto ela é perfeita, e o porquê de ser tão perfeita. Só isto basta: ela tomou conta de todo o meu ser. (GOETHE, 2002, p. 23)


Dominado por essa paixão intensa, Werther passa a freqüentar assiduamente a casa de Charlotte, enquanto o noivo está fora. É, então, que Albert retorna de viagem. Werther logo se torna amigo dele e continua a freqüentar Lotte. Entretanto, com o passar do tempo esta situação vai angustiando-o e ele toma a difícil decisão de não mais vê-la, como escreve a Wilhelm:

30 de julho

Albert voltou, e eu quero partir. Mesmo que ele fosse o melhor, o mais nobre dos homens, e eu me reconhecesse inferior a ele de todos os pontos de vista, ainda assim não suportaria vê-lo, com os meus próprios olhos, possuidor de tantas perfeições...Possuidor!...Wilhelm, isto é o bastante: o noivo está aqui. (GOETHE, 2002, p. 44)


3 de setembro

Preciso ir embora. Obrigado, Wilhelm, por haver tomado por mim uma decisão! Há quinze dias já que eu penso em afastar-me dela. Tenho de ir! Ela veio à cidade ainda uma vez em visita a uma amiga. E Albert...eu...tenho de ir embora! (GOETHE, 2002, p. 57)


Roído pelo ciúme, Werther parte sem dizer adeus, pondo-se por algum tempo a serviço de um embaixador, porém, logo se desentende com ele e pede demissão. Uma nova decisão repentina o empurra de volta para Charlotte, agora já casada com Albert. Em muitos momentos as epístolas a Wilhelm confundem-se com um diário íntimo, no qual o herói deixa transparecer o sofrimento e o crescente desespero que vão se apossando de sua alma vítima de um amor inacessível:

Por que é que aquilo que faz a felicidade do homem acaba sendo também a fonte de suas desgraças? [...] É como se um véu que se tivesse rasgado diante de minha alma e o espetáculo da vida infinita se transformasse em um túmulo eternamente escancarado diante de mim. [...] E é assim que caminho, vacilante e o coração oprimido entre o céu e a terra com as suas forças sempre ativas, e nada mais vejo senão um monstro sempre esfomeado e devorador. [...] Oh, quando, ainda cambaleando de sono eu a procuro a meu lado, tateando, e, ao fazê-lo, de repente acordo completamente, e então choro desolado, contemplando amargurado o sombrio futuro que me aguarda. [...] Assim sendo, meu amigo, a aspiração que sinto de mudar de vida não será uma secreta inquietude, um mal-estar interior que me perseguirá por toda parte? [...] Infeliz! Você está louco? Por que procura enganar a si mesmo? Para onde vai levar essa paixão furiosa e sem limites?... (GOETHE, 2002, p. 52-56)


Diante disso, Werther não podendo mais suportar esse sofrimento vai aos poucos esboçando em seu espírito a idéia de que só a morte poderá libertá-lo, deixando-a subentendida nas entrelinhas de suas cartas:
Wilhelm, a permanência numa cela solitária, o cilício e o cinto de pontas de ferro são o consolo a que minha alma aspira!... Adeus! Só vejo um final para esta miséria: o túmulo. (GOETHE, 2002, p. 56)


Após considerar a possibilidade de matar Albert ou de que Charlotte morra, ele decide dar cabo da própria vida, conforme este trecho da última carta que deixara para Lotte:

Quero morrer! Dormi, e esta manhã, erguendo-me tranqüilo, encontrei ainda em mim aquela resolução, sempre firme, forte e inabalável: Quero morrer!... Não é o desespero; é a convicção de que suportei quanto pude e de que eu me sacrificarei por você...É preciso que um de nós três desapareça, e sou eu quem deve desaparecer. Oh, minha adorada, neste coração dilacerado muitas vezes se insinuou a idéia desvairada...de matar seu marido!...de matar você...de matar a mim! (GOETHE, 2002, p. 102)


A partir daí, Werther pôs-se a planejar de forma calma e serena seu suicídio, utilizando-se de um pretexto simples para que ninguém desconfiasse de sua intenção. E, antes da meia noite, a hora fatal, em seu quarto, Werther escreveu ainda um último bilhete ao pai de Lotte pedindo-lhe que cuidasse de seu corpo. Em seguida pediu uma garrafa de vinho e mais lenha no fogo da lareira. Estava, pois, saindo da vida para a eternidade.
Algum tempo depois de sua publicação, o livro de Goethe passou a ser proibido pelas autoridades alemãs sob a alegação de que fazia apologia ao suicídio. Entretanto, “os sofrimentos do jovem Werther” tornara-se já uma verdadeira mania entre moças e rapazes, que passaram a vestir-se como os protagonistas do romance. Até mesmo um perfume conhecido como ‘água de Werther’ fora lançado na época.

O romance de Goethe foi tão idolatrado, que alguns leitores resolveram levar ao extremo à devoção ao herói a ponto de atentarem contra suas próprias vidas, tendo-se contado diversos casos de suicídio inspirados ‘à moda’ de Werther.Há quem afirme que o processo de composição do romance impedira o jovem poeta Jonhann Wolfang Goethe de antecipar-se ao ato de desespero que narra em seu romance, uma vez que anos atrás o autor experimentara um idílio semelhante pela esposa de seu melhor amigo.Em suma: um clássico que vale a pena ser lido e relido.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASGOETHE. Os sofrimentos do jovem Werther. 1 ed. São Paulo: Martin Claret, 2002.

ROMANTISMO - CONTEXTO HISTÓRICO / GERAÇÕES POÉTICAS





Liberdade guiando o povo -
Delacroix
ROMANTISMO (SÉC XIX)

A ascensão da burguesia à classe social dominante, em conseqüência da Revolução Francesa: a evolução decorrente da Revolução Industrial; os ideais que pontificam (o liberalismo, as independências etc.) relacionam-se com o movimento romântico, assim como o surgimento de um novo público leitor. De origem burguesa este público formou o seu gosto literário através da leitura de jornais vendidos a preços acessíveis. A elevação do poder aquisitivo da classe média e um sistema de impressão de obras em escala industrial propiciaram o alargamento do mercado consumidor de livros.
SITUAÇÃO HISTÓRICA
O Romantismo como escola literária tem suas primeiras manifestações no final do século XVIII nos países europeus mais desenvolvidos, como a Alemanha e a Inglaterra. Uma obra publicada em 1774 – o romance Werther, do escritor alemão Goethe – pode ser considerada o marco inicial da escola romântica na Europa. Com esse livro lançam-se os alicerces da literatura sentimental que caracterizaria o século XIX. Na Inglaterra, os dois maiores representantes do Romantismo foram Walter Scott, autor de Ivanhoé, que instala as bases do romance histórico medievalista, e Lord Byron, o poeta ultra-romântico cuja influência sobre a juventude, o byronismo, popularizou-se como o mal-do-século.
A grande propagadora do Romantismo foi a França, devido à atmosfera legada pela Revolução Francesa(1789), que promoveu a liberdade do indivíduo, rejeitou o absolutismo e levou o poder a burguesia. A nobreza perdeu o poder político e econômico, e a burguesia passou a ditar novos valores. A euforia provocada pela Revolução, associada à possibilidade de ascensão econômica e individual, é o suporta e inspiração de uma literatura que retrata emoções individuais.

CARACTERÍSTICAS DO ROMANTISMO
- Liberdade de criação e mistura de gêneros: romperam-se os esquemas métricos e rítmicos da poesia. O escritor romântico abole todo tipo de padrão preestabelecido. Adota heróis grandiosos, geralmente personagens históricas que foram de alguma forma infelizes: vida trágica, frustração amorosa.
- Criação como impulso/ruptura de regras Valoriza-se a impulsividade, não se cerceia a iniciativa de criação: existe liberdade de exp0ressão. O poeta pode atuar como um porta-voz de um grupo, de uma geração, de sua pátria etc.
- Subjetivismo e valorização do EU: Realidade interior. A consciência individual passa a ser o princípio de qualquer conhecimento. Não há obediência _a harmonia de formas (em oposição ao Classicismo). O disforme, o feio também podem ser objetos da arte. A concepção de beleza é relativa.
- Ênfase no primeiro amor e na pureza feminina: Sobretudo a narrativa romântica terá como grande tam a história de amor, em que os que amam enfrentam sempre grandes obstáculos, mas, no fim, assistem à vitória do primeiro e único amor. A figura feminina é quase sempre vista como angelical e pura. Exemplo: Senhora, de José de Alencar.
- Primado de sentimento: A obra romântica resulta da imaginação, da fantasia. Exaltam-se os sentidos, e tudo o que é provocado pelo impulso é permitido. Contraditoriamente, supervalorizam-se o amor, a virgindade, o sentimento nostálgico, a melancolia , a solidão.
- Vitória do Bem sobre o Mal: Geralmente, no romance romântico acontece o embate entre representantes do Bem e do Mal ( a vitória da bondade sobre a maldade é inevitável. Trata-se de maniqueísmo romântico. Exemplo: Iracema, de José de Alencar.
- Historicismo e valorização da pátria: evasão no tempo, remetendo à Idade Média, berço das nações européias (Medievalismo), ou evasão no espaço, para regiões selvagens, de povos não-contaminados pela civilização. Há também extrema valorização da terra natal, vista sempre como um lugar privilegiado.
- Pessimismo e mal-do-século: A busca da solidão, a inquietação, o desespero, a frustração que pode levar ao suicídio resultam da impossibilidade de realizar o sonho absoluto do eu. Nesse sentido, notam-se grandes influências de Goethe e de Byron.
- Culto ao fantástico, ao sonho: O mundo romântico abres-e com facilidade para o mistério, para o sobrenatural. Representa com frequência o sonho, a imaginação. O que acontece na obra é impossível de ocorrer na realidade, pois é fruto da fantasia.
- Valores burgueses: A honra, o dinheiro, a moral são alguns temas caros aos românticos – valoriza-se a sociedade burguesa.
A POESIA ROMÂNTICA

DIVISÃO TRADICIONAL das GERAÇÕES ROMÂNTICAS:
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PRIMEIRA GERAÇÃO – TEMÁTICAS INDIANISTAS E AMOROSAS
GONÇALVES DE MAGALHÃES
GONÇALVES DIAS
Principal expoente: Gonçalves Dias, com sua poesia de maior elaboração artística. O nativismo indianista de seus poemas e a sua poesia lírica amorosa abriram caminhos para os poetas posteriores.
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SEGUNDA GERAÇÃO - TEMÁTICAS ULTRA-ROMÂNTICAS E BYRONIANAS
Principal expoente: Álvares de Azevedo, um poeta insatisfeito com as formas convencionais do cotidiano. Foi a geração do mal-do-século, que transformou a realidade social e histórica em fatalidade contra a qual não se poderia lutar. Casimiro de Abreu também a representou,
embora de forma mais amena.
ÁLVARES DE AZEVEDO
CASIMIRO DE ABREU
FAGUNDES VARELA
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TERCEIRA GERAÇÃO - TEMÁTICAS SOCIAIS (CONDOREIRISMO)
POESIA LÍRICA E ERÓTICA
CASTRO ALVES
Geração marcada por uma poesia participante em torno da Abolição da Escravatura e das
campanhas pela República. Temas amorosos eróticos, de um lirismo mais sensual.
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Domingos José Gonçalves de Magalhães teve como meta a implantação da nova corrente literária no país, com o apoio do imperador D. Pedro II.
Sua obra: Suspiros poéticos e saudades (publicada em 1836)
Duas características:
substituição da mitologia pagã pela cristã e a subjetividade lírica identificada com a pátria.


O Dia 7 de Setembro, em Paris

Longe do belo céu da Pátria minha,
Que a mente me acendia,
Em tempo mais feliz, em qu'eu cantava
Das palmeiras à sombra os pátrios feitos;
Sem mais ouvir o vago som dos bosques,
Nem o bramido fúnebre das ondas,
Que n'alma me excitavam
Altos, sublimes turbilhões de idéias;
Com que cântico novo
O Dia saudarei da Liberdade?
Ausente do saudoso, pátrio ninho,
Em regiões tão mortas,
Para mim sem encantos, e atrativos,
Gela-se o estro ao peregrino vate.
Tu também, que nos trópicos te ostentas
Fulgurante de luz, e rei dos astros,
Tu, oh sol, neste céu teu brilho perdes.
(...)

Antônio Gonçalves Dias
Poesia –com um tom particular: uma aliança da razão ao sentimento, uma obra equilibrada.
Casa o coração com o entendimento e a idéia com a paixão.

Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.


Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.


Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;


Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;


Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.


De Primeiros cantos (1847)

Presença do índio
Gonçalves Dias forja o seu índio nos modelos do “bom selvagem” de Rousseau. A temática indígena remete à busca de raízes nacionais< à procura do passado histórico brasileiro, assim como os europeus foram às fontes medievais de sua formação histórica. Os Timbiras
Gonçalves Dias


INTRODUÇÃO


Os ritos semibárbaros dos Piagas,
Cultores de Tupã, a terra virgem
Donde como dum trono, enfim se abriram
Da cruz de Cristo os piedosos braços;
As festas, e batalhas mal sangradas
Do povo Americano, agora extinto,
Hei de cantar na lira.
- Evoco a sombra
Do selvagem guerreiro!...
Torvo o aspecto,
Severo e quase mudo, a lentos passos,
Caminha incerto, - o bipartido arco
Nas mãos sustenta, e dos despidos ombros
Pende-lhe a rota aljava... as entornadas,
Agora inúteis setas, vão mostrando
A marcha triste e os passos mal seguros
De quem, na terra de seus pais, embalde
Procura asilo, e foge o humano trato.
Quem poderá, guerreiro, nos seus cantos
A voz dos piagas teus um só momento
Repetir; essa voz que nas montanhas
(...)

Cantos de amor
O lirismo amoroso traz a emoção sem se distanciar da razão.



Se se morre de amor


Se se morre de amor!
— Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores.
Assomos de prazer nos raiam n'alma,
De embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve, e no que vê prazer alcança!
.Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração— abertos
Ao grande, ao belo;é ser capaz d'extremos.
D'altas virtudes, até capaz de crimes!
Compr'ender o infinito, a imensidade,
E a natureza e Deus; gostar dos campos,
D'aves, flores, murmúrios solitários;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
Fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes;
Isso é amor, e desse amor se morre!

ÁLVARES DE Azevedo
Lembrança de Morrer


Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.
E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.
Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
– Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade – é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.
Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas…
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!
De meu pai… de meus únicos amigos,
Pouco - bem poucos – e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.
Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei… que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!
Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores…
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.
Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo…
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!
Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.
Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!
Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos…
Deixai a lua pratear-me a lousa!



Castro Alves (o poeta dos escravos)

Trecho do Navio Negreiro

'Stamos em pleno mar...
Doudo no espaço Brinca o luar
- dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.
'Stamos em pleno mar...
Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
- Constelações do líquido tesouro...
'Stamos em pleno mar...
Dois infinitos Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...
'Stamos em pleno mar. . .
Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...
Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?


A sensual poesia amorosa de Castro Alves

O “adeus” de Teresa
A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos... E depois na sala
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala...

E ela, corando, murmurou-me: “adeus”.

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saiu um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!
“Adeus” lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”

Passaram tempos... séc’los de delírio...
Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
... Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse – “Voltarei!... descansa!...”
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”

Quando voltei... era o palácio em festa!...
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”